A vista toda é de uma natureza humana e morta. Humana porque da displicência nasce a pobreza e, desta, a miséria. Morta, porque o cinza das ruas e das pilharias amontoadas nas calçadas, dava ao ar um pútrefe odor, returgindo massivas ondas de morte que aumentavam consideravelmente ao calor. As aldrabas já verdes de tanto musgo, nas portas de uma madeira carcomida da poeril virtude solar eram guindadas, com pesar, por trancas enferrujadas já de tempos. As casas exibiam franjas das construções dos aracnídeos, como se para embelezar aquele lugar triste, os animais fossem mais competentes que os homens. De fato, a camada de casas enfileiradas naquela rua, ladeando umas às outras, como a matilha que espera a caça ao pé dos cavalos reais, já fora, em outros e antigos tempos, uma aldeia feliz, banhada ora pela visão das areias brancas, ora pela brisa do mar azul.
Já distante trinta léguas da aldeia mais próxima, aquele lugar era, então, habitado pelos filhos dos netos dos primeiros pescadores da Vila de São Sebastião. Essa vila era formada pela Quinta dos Batéis, que é esta que fica mais próxima ao mar; e juntava-se ainda o Monte do Corço, que fazia o caminho entre a Quinta e as feiras, e a própria feira, que tinha o nome de Pedra dos Bentos. Esses lugares, eram tão próximos geograficamente, quanto separados orgânica e humanitariamente. Os pescadores da Quinta entregavam aos de Monte do Corço, em silêncio, o produto da pesca, e como se estivessem também por vender as palavras, voltavam-se com elas à boca, como não tendo arranjado comprador. De Monte do Corço partiam os senhores das terras à Pedra dos Bentos, e na mais pura forma de oficialidade, numa frieza sobrehumana, combinavam os preços com aqueles milenares olhares parcimônicos.
De modo que tudo funcionava como um vasto organismo que não se dava, como um uma engrenagem sem correntes. As vielas, ruelas, cidades, quintas, montes e castelos tinham, em si, temperamentos como de gente, e estes próprios mudavam, de acordo com a proximidade em que iam ficando do mar. Enquanto em Pedra dos Bentos se podia comprar de tudo, desde talheres a sexo, em Monte do Corço o cultivo das vinhas só era interrompido duas vezes ao ano para as festas da religião. E em Quinta dos Batéis, nunca se ouvira falar em reunião maior do que aquelas para decidir quem levaria a pesca até o Monte.
posted by M.D.Aragón at 11:54 !
E hoje nos vejo divididos em dois grupos distintos: os que crêem sem questionar, os que questionam por que não crêem.
posted by M.D.Aragón at 18:00 !